Where the Ocean Ends

Where the Ocean Ends

The Ocean

by Tay Marais

20 chaptersen-US

Adam Walker has the world at his feet, an Oscar on his shelf, and a deafening void in his chest. After a devastating divorce that plastered every tabloid cover, the actor flees to the shadows of Los Angeles in search of anonymity. He didn't expect to find Madeleine Bennett. She is the 'Blonde Angel' of music, a prodigy heiress who lives under the constant surveillance of a world that idolizes her but never protected her. Madeleine carries invisible scars from a past of abuse and control, hiding behind melancholy melodies and the counter of a run-down bar. What begins as an undeniable physical attraction on a rainy night turns into a dangerous agreement: a friends-with-benefits arrangement with no promises. But as the lights of Hollywood pale before the real connection between them, Adam and Madeleine realize they can no longer pretend. Between film sets and escapes to the sea, they must decide if love is an impossible script or the only way out for two survivors. In 'Where the Ocean Ends', Tay Marais delivers a sweeping romance about vulnerability, the costs of fame, and the courage required to trust again when all you know is betrayal.

  • Romance
  • Literary Fiction
  • Contemporary Romance
  • Celebrity Romance
  • Slow Burn Romance
  • Relationship Drama

ADAM

Sábado, 9 de novembro de 2024, Los Angeles, CA.

A porta de madeira pesada bate com força. Um rastro de luz corta a penumbra, abafando os acordes de Dreams do Fleetwood Mac. O som do trinco ecoa pelo bar vazio. 

Ela não entra, ela desfila. Saltos agulha estalam contra o chão de madeira desgastado. Suas pernas nuas guiam o reflexo até a barra do vestido de cetim preto, colado ao corpo como uma segunda pele. 

A postura trava. Sem girar o pescoço, o banco range sob o peso e os ombros se ajustam. O espelho manchado atrás das garrafas exibe a cena. O boné desce um centímetro, o suficiente para obscurecer o azul-gelo das íris, mas não a visão. 

Cada movimento é coreografado. O cabelo champanhe cai em ondas pelos ombros, uma pintura renascentista na sujeira de Los Angeles. A confiança é uma armadura. Ignorando os poucos olhares no recinto não por soberba, é treinamento. Foco no objetivo.

Caminha até o bar e para a duas cadeiras de distância. A pressão atmosférica muda. O ar fica pesado, carregado com um perfume de baunilha que não pertence à madeira velha e cerveja choca. A aba do boné desce. Invisível. Permaneça invisível. 

Mas virando o rosto para a luz do balcão, a invisibilidade se torna irrelevante. O reconhecimento vem como um soco seco. 

Madeleine.  O fantasma das histórias de Dylan, a melhor amiga de Thomas.  “Mad” sempre achei um apelido idiota de tabloide, até vê-la pessoalmente. O que diabos está fazendo no meu refúgio? 

— Madi, o que está fazendo aqui? — A voz de Magnus quebra o silêncio dela.

Meu maxilar trava. Desvio o olhar para o copo, estudando o líquido âmbar. Sou um ator. Reconheço quando alguém está atuando. E está entregando a performance da sua vida.

O velho barman, cuja expressão padrão varia entre indiferença e hostilidade, abre um sorriso que nunca havia visto. 

Contornando o balcão limpa as mãos no avental. Os braços abertos, abraçando o cetim caro e a mulher intocável como se fosse seu próprio sangue.

— Magnus, quanto tempo… — A resposta dela vem arranhada contra o ombro dele. Uma falha na vocal que me faz inclinar de leve a cabeça. Interessante. 

Eu não deveria ouvir. Mas observar o comportamento humano é um vício pessoal, e agora, estou viciado na cena que se desenrola ao meu lado.

— Feliz aniversário! — Magnus diz, afastando-se para segurar as suas mãos com uma familiaridade que me deixa tenso. — E sinto muito, minha querida. Seu avô era alguém muito querido por mim.

O contraste é violento. Parabéns e pêsames na mesma respiração. Madeleine solta das mãos dele, para mexer no próprio dedo, o anel gira. Eu levo os meus à marca da aliança, que agora é apenas um ponto mais claro na minha pele.

Merci… — O tom caindo para o zero absoluto. Frio, mecânico. Uma defesa rápida para não desmoronar diante da menção a Henri Bennett. E funciona. 

— Você anda ocupada demais para passar por aqui, não é mesmo? — O tom brincalhão tenta suavizar o clima pesado. Ele consegue uma risada rápida dela. — O mesmo de sempre? 

Magnus já começa a caminhar de volta para trás do balcão, buscando o copo. 

— Sim, por favor. Com muito gelo. 

Ela desliza para a cadeira alta com uma postura  natural, mas esculpida. Coloca a bolsa de grife sobre o balcão sujo sem se importar. Perto o suficiente para ser notada, e longe para manter o controle. 

Cada movimento é coreografado: o nariz empinado, o desdém aristocrático, a elegância que grita para ninguém se aproximar. Mas está escondendo um tsunami na forma como morde o lábio inferior. Suprimindo uma verdade que poderia estilhaçar o espelho à nossa frente.

Madeleine. Bennett. 

A herdeira, a “L'Ange Blond”, o anjo loiro que Hollywood devorou e cuspiu. Ex-atriz mirim que cresceu rápido demais sob os holofotes e se transformou em uma cantora prodígio. Estamos ambos aqui, fingindo que não somos o que o mundo decidiu que somos. 

Forço meus olhos de volta para a televisão velha no canto, tentando recuperar o foco, mas minha visão periférica me trai. 

Magnus alcança a prateleira de cima. A garrafa inconfundível. Um sorriso involuntário,  imperceptível, repuxa o canto da minha boca. 

Calvados? Magnus me apresentou essa bebida há uma semana, e é dela? 

Não é apenas um conhaque qualquer, é bourbon de maçã, rústico, forte e, naquela safra específica que Magnus guarda como um tesouro? É obsceno de caro. 

Nunca encontrei ninguém em Los Angeles, muito menos alguém com essa aparência de porcelana, que tivesse esse gosto. O meu gosto. O legado da Normandia é dela. 

Disfarçado, volto a buscá-la pela segurança do reflexo. Que se torna minha ferramenta de espionagem. A luz amarelada e suja desenha o seu perfil, cortando a escuridão. Minha disciplina falha, minhas tentativas de ignorá-la são inúteis. Madeleine tem uma gravidade própria. 

Magnus entrega a bebida e deposita a garrafa de vidro ao lado do copo com um baque surdo. Ele pergunta: 

— E então, minha querida, precisa de mais alguma coisa? 

A voz dele me dá um choque térmico. O tom ríspido e direto que usa comigo há um ano é substituído por uma doçura paternal. Eu não o culpo, mas me desequilibro. 

Madeleine é uma alienígena neste cenário com esse figurino de grife, mas a familiaridade com o local é absoluta. 

Dou-me conta: eu não estou no meu esconderijo. Estou no território dela.

— Não precisa se preocupar comigo, Magnus. — O tom é educado, a dicção perfeita, mas firme. Uma barreira polida. — Vim para cá porque é o único lugar onde encontro paz nesta cidade. 

Ele ri e concorda com a cabeça antes de se afastar, deixando-a a sós com o Calvados. 

Paz? Em Los Angeles? Nem mesmo aqui consigo encontrar. No espelho, assisto ao ritual. 

— Santé, bon-papa — Ergue o copo em um brinde invisível. Madeleine vira-o. Um gole único. Sem careta. Sem hesitação. 

Bennett pega a garrafa pesada e se serve novamente. Movimentos econômicos. Então, ela quebra a quarta parede e olha ao redor. As adagas encontram meus olhos refletidos no espelho.  Merda.

O contato é elétrico. Desvio para a TV como um amador, o coração bate contra as costelas, um ritmo descompassado que odeio. 

Fui pego. A ironia do universo se manifesta com Someone New, de Hozier, arranhando nos alto-falantes. A sua atenção queima a lateral do meu rosto. A pressão atmosférica ao meu redor despenca. O perigo da baunilha fica mais intenso.

Clack.

O som seco do copo contra a madeira é um ultimato. O pescoço gira. Não há como fugir. Está preparada, o corpo virado no banco, me encarando. Quando nossos olhares se cruzam sem barreiras, meu maxilar se trava com força. O ar sai dos meus pulmões. Não é apenas beleza, é intensidade. 

Ela pisca. Uma fração de segundo em confusão, e a inspiração presa. A postura defensiva relaxa. Madeleine me reconhece. Solto o ar devagar pelo nariz. 

Controle, Adam. Desviando o olhar desconcertada. Volta a atenção para o Calvados. Mas o dano está feito. E a bebida não é distração suficiente. O dedo girando o anel com uma velocidade dolorosa. 

A tensão toma meu corpo. Meus dedos ainda ardem com a pressão da caneta no papel, o peso morto da assinatura que me selou como um homem divorciado há mais de vinte e quatro horas. 

Nossos rostos e vozes estão espalhados por todo lugar, com certeza viu o suficiente do meu. Idiota. O boné não esconde nada. Me amaldiçoo por encontrá-la justo hoje. 

Madeleine não me olha de novo. Há uma rigidez sutil na sua espinha. Ótimo, o desconforto é mútuo. 

Respiro fundo, e viro o resto do líquido na garganta. O ardor é bem-vindo. Faço um sinal para Magnus enquanto Bad Reputation grita em estática pura no fundo. 

O velho entende a deixa rápido demais. Ele pega a garrafa que estava com ela, enche meu copo até a borda, mas não a leva de volta. 

Ele pousa o Calvados exatamente no meio do espaço vazio entre nós dois. O vidro bate contra a madeira. Uma ponte. Ou uma armadilha. Que jogo você está jogando, Magnus? É um convite explícito. 

Uma descarga elétrica percorre a nuca, despertando nervos mortos desde bem antes do divórcio. Adrenalina. Se eu sair agora, mantenho a segurança, o anonimato e o vazio. Se eu ficar… Porra. 

A névoa cinza que cobre minha vida se dissipa sob o seu olhar. Estou vivo. É perigoso. É estúpido. E eu não vou recuar.

Inclino na sua direção, reduzindo a distância entre nossos bancos de couro. Invado o espaço pessoal com precisão e intenção. Meu calor irradia da pele. Um sorriso tranquilo curva meus lábios. Ensaiado para desarmar

— Você sabe escolher bem o seu veneno. 

A voz sai baixa, grave, modulada naquela frequência de intimidade compartilhada que costumo usar para seduzir a câmera. Madeleine ergue os olhos do copo, sorrindo de canto,  imperceptível. Inclina a cabeça, me analisando com frieza.

— É uma habilidade adquirida com o tempo — responde, o tom casual, mas carregado de um charme desconcertante. 

Ela bebe um gole, arqueando uma sobrancelha, e me desafia a continuar. 

— Nunca achei que fosse encontrar você, logo aqui… — tento sondar sem ser óbvio. 

Madeleine solta uma risada curta. Ácida. Sarcasmo puro. Com o barulho da porta fechando, quebra o contato, verificando o ambiente. Paranoia? Fuga? Volta para mim.

— Você me encontrou? — pergunta, se divertindo com a inversão. — Não sabia que estava perdida. 

Touché, Bennett. O sangue esquenta. Ela não late, ela morde. Em reconhecimento um sorriso malvado se abre no meu rosto, eu gosto disso. Gosto demais. Meu cérebro acelera, buscando a próxima linha, recorrendo aos anos de improvisação.

— É curioso você estar aqui nesse fim de mundo… quando poderia estar em outro lugar sendo o centro das atenções — provoco, meu tom leve, mas intencional. 

O efeito é instantâneo. Madeleine congela. A taça de Calvados para no meio do caminho, a milímetros de seus lábios. Tenho a sua atenção total agora. Instigante. Ela ri seca, me jogando um olhar de canto de olho.

— Em outro lugar? Como você poderia saber? — rebate rápida. 

Tenta cobrir com indiferença, olhando ao redor como se não importasse, mas a rigidez volta a dominar os ombros esguios. Deixo o sorriso se abrir mais, o brilho de quem possui a informação privilegiada. Aumento a aposta.

— Thomas me convidou para uma festa esta noite. Ouvi dizer que é para uma aniversariante especial… — Faço uma pausa estratégica, a micro-expressão de culpa cruza o rosto dela. — Mas acho que ela fugiu. 

Mantenho meu tom leve e cheio de intenção. Com Colors do Black Pumas tocando ao fundo, Madeleine inclina a cabeça, e um sorriso cínico e lento se forma em seus lábios.  

— Bem, que sorte a sua encontrar a aniversariante em fuga. 

O tom é veludo puro, grave e arrastado. Uma entrega impecável, para provocar.

— Uma grande sorte… — Devolvo rápido, o ritmo do meu coração acelerando. 

Os dedos apertam o copo. O gelo queimando a palma da minha mão contra o ar quente do bar. Busco o peso da aliança no meu dedo anelar, encontrando apenas o vazio.

Henri Bennett. O magnata. O funeral foi há o quê? Três dias? E Madeleine está aqui, em um bar sujo, bebendo destilado. 

Engulo em seco. A vontade de tocar na ferida briga com o bom senso. 

‘Fale sobre o avô. Cale a boca, Adam’.

— Thomas é demais para lidar. Dessa vez não estou a fim de festa. — Ela solta uma risada suave, mas há sombra demais no olhar. Pesar genuíno.

As mãos não aquietam sobre o balcão. Os dedos longos atacam o ouro branco que usa, girando-o de maneira obsessiva. Que bate contra o vidro. Gira. Click. Gira. Ali está. A rachadura na postura impecável. O tique nervoso que  não conseguiu editar.

— Então você escolheu este lugar… — Indico as banquetas rasgadas, a madeira velha.

— Tranquilo, escuro, ninguém desejando parabéns, a não ser o Magnus. — Ela faz uma pausa, levanta o queixo, me lançando um olhar que é um desafio direto. — Perfeito, não acha? 

— Perfeito — O sorriso surge fácil. Estamos compartilhando o desprezo pelas nossas prisões bem mantidas. — Embora, tenho que admitir, Thomas parecia bem animado com a ideia de me apresentar à estrela da noite. 

— Thomas não entende que algumas noites são melhores quando não se é o centro das atenções. 

Devolve em um golpe, mas não há raiva, apenas uma exaustão óssea que espelhada meus próprios nervos. 

— Concordo, — digo, e é a verdade. Eu vivo fugindo. — Mas hoje deveria ser uma exceção, não acha? 

Minha voz cai meio-tom. Mais perto. Desviando o olhar, os dedos avaliam a borda do copo e a minha intrusão.

— Talvez — ela diz. Uma frequência baixa que faz meu corpo estremecer em resposta. — Mas precisava de um dia sem que alguém estivesse me vigiando. 

Balanço a cabeça, incapaz de conter a ironia. 

— Acho que essa parte do seu plano falhou. 

Madeleine esboça um pequeno sorriso. Mas não me manda embora. Ao contrário, a tensão drena dos seus ombros. Desafiando a gravidade e o bom senso, pende na minha direção.

— Já que não houve o protocolo, Adam Walker — digo, forçando um sorriso astuto enquanto estendo a mão sobre a madeira riscada do balcão. 

— Madeleine Bennett… — Ela responde, a voz calma, mantendo a cadência, ignora minha mão estendida. E não perde tempo. — Monsieur Walker, do que está fugindo? 

A pergunta sai afiada, cortando o ar carregado de álcool. E para garantir que o golpe acerte, se move. Desliza da sua cadeira para a banqueta vazia colada ao meu lado, arrastando seu copo junto. Aniquila o espaço seguro entre nós. Deliberada. Invasiva. 

Bennett toma um gole da bebida, fixa nos meus, esperando a resposta que já leu na minha postura.

Limpo a garganta, ganhando segundos preciosos. A pressão atmosférica despenca. Suspiro, a verdade queima a ponta da língua. É mais do que sinceridade, é um teste. 

Quero ver como Bennett reage à minha sujeira. Se vai me dar o olhar de pena que todos me deram. Um pedaço da humilhação que definiu meu último casamento.

— Há um ano, minha… ex… — A palavra tem gosto de bile fazendo meu maxilar travar. Um espasmo de bruxismo. Levanto e eu travo no azul-glacial. — Me deixou por um bilhete. E ontem… ontem nós assinamos os papéis do divórcio. 

Levanto o copo, um brinde sarcástico à minha catástrofe pessoal. Solto uma risada seca e bebo. Madeleine não recua. Inclina o queixo, os topázios brilham sob a luz amarela, e bebe junto. Cúmplice no caos.

— Você deve estar devastado… — A voz vem carregada de um sarcasmo brincalhão, cruel de tão honesto.

Bennett toca de leve no meu ombro, o calor dos dedos atravessa o tecido do meu terno, e solta uma risada curta. 

Eu travo por um segundo. Esperei o recuo, o desconforto social, mas faz graça. Madeleine valida o absurdo da situação. O peso da responsabilidade saindo das costas. 

— Ela pelo menos falou algo poético no bilhete? 

O gosto ruim inunda minha boca. O ar fica rarefeito. O bilhete. A confissão da traição. 

— Ha! — Rio, sem graça nenhuma. — Com certeza não, ela falou demais… 

As palavras saem estranguladas. A sensação de ser descartável faz meus pulmões arderem. Eu não consigo respirar dentro desse assunto. Minha mão agarra a garrafa de vidro de Calvados como se fosse meu único aliado. 

Madeleine nota a mudança na minha frequência cardíaca. E se afasta, girando o corpo para frente, as unhas compridas batendo um ritmo impaciente contra a madeira do bar. Bennett viu o limite e recuou. Inteligente. 

— E você acha mesmo que com um simples boné dos Yankees, vai conseguir se esconder? O Prada, entrega tudo — O tom é provocador. 

Gira o copo, percorrendo a lapela impecável da minha roupa.

— Uma pergunta decente?  — Provoco, rindo suave. 

Revira os olhos, contendo o riso. O comentário não é sobre moda, é um bisturi me cortando aberto. Ajusto a aba do boné. Escuto a estática de Wicked Games furar nossa bolha. De volta ao jogo.

— Está tentando dizer que não me misturo bem por aqui? 

— Não exatamente. — Vira a cabeça, me escaneando além do corte do tecido. — Não com esse terno, feito sob medida para você. 

Inicia um movimento, invadindo meu espaço, mas para na metade do caminho. Recua, testando minha reação. Lambo os lábios, a boca seca. O vácuo que deixa exerce uma pressão negativa, me puxando para frente. Preencho o espaço.

— Isso é um elogio? 

— Nem de longe. — O sorriso é travesso. — Esse boné dos Yankees é um ultraje com esse terno Prada. 

Tiro o boné, rindo, e o jogo sobre a madeira riscada do balcão. A armadura cai. 

— Melhor agora? 

Madeleine se inclina. A mão estica, violando a fronteira final. Os dedos tocam a ponta do meu cabelo, bagunçando os fios com a intenção de arrumar. O toque é elétrico, um choque térmico contra tudo que vivi no último ano.

— Bem melhor. 

Ela tenta ser despreocupada, mas há algo denso na íris. Meu reflexo é capturar. Minha mão fecha em torno do seu pulso controlado, firme, mas sem força excessiva. 

O que Bennett está fazendo é riscar um fósforo perto de um barril de pólvora. Eu a seguro ali, suspensa no tempo,  a pulsação sob meus dedos. Lanço o meu melhor sorriso de galã de comédia romântica e solto o seu pulso.

Você me vê. Eu também te vejo. Mas mesmo naquele segundo, estou sob o controle dela. Coloco meu escudo de volta na cabeça.

— Obrigado, mas alguém vai me reconhecer. O boné, pelo menos, me distrai dessa possibilidade. 

— Adam, você tem uma estatueta dourada na estante e o rosto em todo lugar de Los Angeles. O boné não faz milagre. — Madeleine balança a cabeça, mas o sorriso vacila, olhando ao redor.

A menção à coisa dourada faz meu estômago contrair. O Oscar por The Quiet Man. O troféu que ergui sorrindo para as lentes enquanto minha esposa levava meus discos e minha dignidade. Uma parede de vidro sobe entre nós, fria. Ela entende o peso, meu pensamento voa para o Prêmio César, a revelação mais jovem da história. 

Balanço a cabeça. Abro um leve sorriso, sem mostrar os dentes.

— É por isso mesmo… 

A desconfiança transborda no meu rosto. Madeleine faz uma careta, percebendo que tocou na ferida. A fama entrou na conversa, arrastando a realidade para dentro do nosso refúgio. 

Meu olhar varre o bar, um instinto antigo de sobrevivência me fazendo procurar por câmeras ou olhares curiosos. 

Eu não estou mais apenas bebendo com uma mulher interessante. Estou exposto. Sou um alvo, e a conexão que temos, elétrica e rara, já está em ameaça. 

O silêncio desce sobre nós como uma neblina densa, pesada, preenchida pela guitarra distorcida do Nirvana. Heart-Shaped Box.

O zumbido violento do celular vibrando contra a madeira do balcão, quebra o transe. Uma broca nos meus nervos. Acende, iluminando a penumbra com a mensagem que deveria significar liberdade.

[J.P. MORGAN PRIVATE BANK] Alerta de Transação: Transferência eletrônica de saída finalizada. Beneficiário: R.S. – Escrow Account / Legal Reps. Status: Liquidação Concluída.

É um balde de água gelada na espinha. O maxilar ameaça ceder, os dentes rangendo. Sem hesitação, o polegar pressiona o botão lateral, apagando a tela. Mas o timing de Riley é sempre impecável para a destruição. 

Acendendo novamente. Madeleine toma um gole do seu copo enquanto meus olhos varrem o texto rápido demais para impedir a leitura compartilhada:

Transferência confirmada. Meu advogado disse que o acordo de partilha foi selado. Enfim livres. É o melhor para nós dois, Adam. Meus carregadores….”. 

A audácia me faz apertar o copo com uma pressão letal, os nós dos meus dedos brancos. O impulso de estilhaçar o celular contra a parede é um espasmo que contenho. Ethan era como um irmão, e vocês transformaram meu casamento em uma farsa. A estrutura do copo protesta, mais um milímetro de força e estaria tirando cacos da minha palma. 

Controle, Adam. 

Respiro fundo, forçando o ar para conter a raiva que ferve sob a minha pele. Viro o celular para baixo, deixando-a no escuro. Ela não merece minha resposta. E não merece que interrompa esta noite por causa das mentiras que agora chama de ‘Enfim livres’. 

— Que tal me contar o que tinha naquele misterioso bilhete? — Madeleine pergunta, arqueando uma sobrancelha. Leu a minha raiva e, em vez de recuar, avança.

Solto uma risada desconfortável, passando a mão no rosto. Bebo um longo gole, tentando lavar o gosto ácido daquela mensagem.

— Achei que você já tivesse lido em algum site de fofoca. A versão do TMZ costuma ser mais criativa. — Faz uma careta de repulsa. Eu tento outra saída. — Meu irmão e Thomas já não fofocaram sobre isso?

— Prefiro quando a informação vem direto da fonte. — Ela solta, gesticulando com a mão, movendo-se na cadeira para me encarar. — E mesmo assim… Nunca sabemos se alguém está mentindo. 

O tom é astuto. Madeleine é esperta. Rápida. Rio, incrédulo com a audácia. 

— Ninguém me contou nada! — Insiste, um brilho de caçadora nos olhos. — E você não vai escapar tão fácil, Walker. Começou a história, agora vai ter que terminar…

O olhar gelo pesa nos topázios, calculando o risco. O brilho pega fogo e me diz que não quer a versão polida e segura. Quer a sujeira. Decido dar uma parte. Uma isca. Baixo a aba do boné, escondendo os cinzas por um segundo, antes de soltar o ar.

— Só um bilhete. Foi tudo o que ela deixou na bancada da cozinha. — As palavras saem simples. Madeleine fica em silêncio, esperando, o anel girando em seu dedo. — Admitindo que me traía…

Mas o veneno real, o nome dele, o meu melhor amigo, o padrinho do casamento? Fica preso na minha garganta como um anzol. 

— É complicado…

A vergonha de ter sido substituído é grande demais para compartilhar agora. Limpo a garganta, esfregando a barba.

— Quando não é? — Madeleine responde. O sorriso desaparece. A expressão é fria, mas sem julgamento. — São cicatrizes que carregamos. E levam tempo para pararem de doer… o tempo não cura, mas tudo no fim passa.

Sorrio, pendendo involuntário na sua direção. O que é esta noite? Meu eixo quebrou de vez.

— Você consegue ler meus pensamentos, Bennett? 

— Sei o suficiente sobre o preço de confiar em alguém… — Ela se inclina na minha direção, a postura de intocável retornando, mas agora com um rastro trágico. — É por isso que não me envolvo. La destruction mutuelle est la seule certitude d'une relation. A destruição mútua é a única certeza de um relacionamento

Traduz a frase para garantir que eu entendo. O fascínio trava meus músculos. Destruição mútua. Não é o que uma mulher de vinte e dois anos costuma acreditar. A experiência vibra em cada sílaba. Madeleine deixou a máscara cair, e não é uma garota. Poderia ter a minha idade, ou talvez cem anos a mais em danos.

— Infelizmente, não posso discordar disso. — respondo, minha voz descendo para o registro mais grave, arranhada pelo Calvados e a verdade nua.

Ficamos assim por alguns segundos. O silêncio não é vazio, é elétrico. Nossa presença troca faíscas de uma conversa não dita. O vibrar do celular sobre o balcão, cortando o momento. Uma nova notificação. 

Dylan. Alguém viu a Madeleine? O Thomas está surtando.

A ironia é tão perfeita que uma risada seca escapa da minha garganta. Meu irmão mais novo, o namorado devoto do Thomas, está caçando a fugitiva que está a trinta centímetros do meu cotovelo. Madeleine, encara o movimento circular do líquido no copo. Viro a tela.

— Acho que estão à sua procura, Bennett.

Ela lê a mensagem. A reação é imediata: um balançar de cabeça exausto. Termina a bebida com um suspiro dramático, serve uma dose generosa para si e, sem pedir permissão, completa o meu. Cúmplice.

— Ele tem o meu Buscar iPhone. Desliguei meu celular esta noite por causa disso. — Há afeto na voz, mas também a exaustão de quem é vigiada. Aperta as pálpebras, obsessiva, gira o anel em seu dedo mínimo. — Me surpreendo que Thomas ainda  não colocou um rastreador em mim. Ele nunca sabe quando parar.

Os topázios sobem, me estudando, calculando minha lealdade. Arqueio a cabeça, curioso. 

— E o que você vai fazer? — questiona, acenando em direção ao celular onde a mensagem de Dylan ainda brilha.

Tenho uma escolha: ser o informante, ou ser o conspirador. Pagan Baby do Creedence carrega meu sorriso astuto curvando meus lábios. Aquela expressão me custa menos do que qualquer atuação dos últimos meses.

— Nada! — Afasto o aparelho para a borda da madeira, resíduo de uma vida que não me pertence. — Sou sortudo, lembra? — Encaro-a, deixando a intenção queimar no ar entre nós. — Tenho a atenção da aniversariante toda para mim.

Madeleine ri. É um som alto, cristalino. Genuína.

Um choque de eletricidade percorre minha espinha, despertando os nervos que acreditei estarem mortos. O som é mais real do que qualquer segundo que vivi nos últimos três anos.

As pálpebras tremem. A intensidade é algo para o qual não estava preparado. Perigo. A mandíbula trava em um espasmo de bruxismo. Me afasto, quebrando o feitiço que está lançando sobre mim. Preciso queimar essa sensação antes que cometa uma estupidez.

— Eles que se virem! — Eu continuo, forçando um sorriso irônico para mascarar o abalo sísmico interno. Tateio o bolso do terno Prada. Pego o maço de cigarros. — Você fuma? 

— Às vezes — ela responde. O tom é carregado, habitando o território dos segredos.

— Então vem. Preciso de ar. 

Eu testo o limite. Para minha surpresa, e deleite, não recusa. 

Madeleine se levanta com uma fluidez felina e, num movimento que me faz rir por dentro, agarra a bolsa pequena e a garrafa de Calvados, pelo bico. Uma herdeira fugindo com a bebida. Magnífico.

Jogo um valor generoso de notas no balcão, pagando o destilado e o silêncio de Magnus. Com o copo na mão, atravesso a porta do bar, segurando-a. Madeleine passa por mim, o doce perfume de fumaça com baunilha invade meu espaço. Pressionando a garrafa fria contra o peito e vai direto para uma mesa de vidro vazia na calçada.

Coloco o copo e o maço sobre o tampo. Bennett deposita a garrafa ao lado com um baque. A rua está deserta. 

Sem dizer nada, ofereço um cigarro. Ela aceita. Com o isqueiro Zippo, protejo a chama do vento e acendo o dela. A luz laranja ilumina os seus cílios, as maçãs do rosto. Depois, acendo o meu.

A primeira tragada é o alívio. A fumaça sobe, misturando-se à noite de Los Angeles.

O rosto de Madeleine, desenhado pelas luzes tênues da rua e a brasa do cigarro, é hipnotizante. O silêncio que se segue é confortável. Fácil demais. É isso que torna tudo assustador. Estar ao seu lado, com todo o caos que carrega, é para ser uma guerra constante. Mas, é a primeira vez desde o divórcio, que algo que se assemelha à paz. 

Inspiro fundo, tragando a fumaça e a coragem necessária para quebrar a barreira. Decido dizer o que está guardado, não como uma esperança, mas como um fato.

— Sei que você não quer falar sobre isso, mas… — começo, hesitando. Limpo a garganta, ajustando o tom. — Perdi meu avô aos vinte e um anos. E, olha, não é como todo mundo diz. Você não “segue em frente”. Você aprende a viver com o peso, porque a alternativa é não viver. — Rio, irônico tentando aliviar o peso da frase. — A saudade fica. Só… lembre-se de que ele amava você. E continua em você. 

Madeleine fica em silêncio. O olhar dela pesa sobre mim, avaliando a minha sinceridade, antes de desviar para a rua deserta. Foi um tiro no escuro. Se perde na memória de Henri Bennett, mas eu sustento o espaço. 

Seus dedos buscam o anel de sinete no dedo mínimo. Gira. O único ponto de foco.

— Bon-papa me criou como se fosse minha segunda chance na vida — ela diz. A voz sai baixa, rouca. 

Segunda chance. A escolha de palavras ativa meu radar, mas mantenho o silêncio.

— Pode ser que ele esteja comigo. Mas… — A voz falha. Bufa, frustrada com a própria fragilidade. — Nada importa. Tudo o que quero é vê-lo mais uma vez… e nada pode fazer isso acontecer.

Concordo silencioso. A profundidade da dor dela me leva ao meu próprio passado, à perda da minha mãe, ao vazio que nada preenche. 

— Tudo o que ele amou continua aqui, em você. — No horizonte, onde as luzes da cidade apagam as estrelas. Decido oferecer o meu santuário. — Meu avô costumava me levar para caminhar na praia. Sempre que fico com saudades dele, vou para lá… É onde sou livre.

Ela se aproxima, pensativa. Apaga o cigarro no cinzeiro e, sem cerimônia, pega outro da minha carteira. Acendendo com o zippo que tira da bolsa.

— Você não está errado sobre isso… — murmura.

Madeleine para, focando em um ponto cego na escuridão. Antes que eu possa responder, a atmosfera muda. Passos apressados, pesados, sobem a calçada deserta, invadindo nossa bolha.

Um casal passa por nós. A linguagem corporal é um desastre. O homem puxa a mulher pelo braço com uma força desnecessária. Ele murmura algo entre dentes, baixo, mas a frequência é inconfundível. Ameaça.

Madeleine congela. Por completo. Não é um susto, é um desligamento do sistema. Acompanha a cena com uma expressão de aço, algo que ainda não havia visto. O terror está lá, mas está enterrado sob camadas de defesa. Conhece essa violência de perto.

O instinto vibra, eletricidade percorrendo cada músculo. Dou dois passos largos para a borda da calçada, me colocando entre ela e a rua. Não corro. Caminho. Sou discreto, mas ocupo o espaço com a autoridade de quem sabe como projetar ameaça. Ajusto a postura, tornando o corte do meu terno uma barreira física.

O homem levanta os olhos. Se me reconheceu ou tem medo de um estranho com o dobro do seu tamanho? Pouco importa. A covardia substitui a agressão no mesmo segundo. Ele solta o braço da mulher, recuando. Resmungando algo ininteligível se apressa para o outro lado da rua, fugindo do confronto.

Volto-me para onde estava, escaneando o perímetro. O aperto na minha mandíbula é tão forte que a raiz dos dentes protesta.

Madeleine, se afasta. Recuando contra a parede do bar. Fugindo da situação? Ou de mim? Os olhos continuam vidrados, presos em um trauma que eu não posso ver, mas resoa. O que está acontecendo dentro da sua cabeça, Madeleine?

Dou um passo à frente, seguindo a direção dela por instinto. Preciso trazê-la de volta. 

— Ei… Já passou. 

Minha voz sai suave, um contraste total com a postura de ataque de segundos atrás. As mãos continuam fechadas em punhos ao lado do corpo. Consigo atrair sua atenção, mas não sustenta o contato visual. 

A mulher desconhecida se afasta, ajeitando o vestido com movimentos trêmulos. Ela lança um olhar rápido na nossa direção com um lampejo de alívio e humilhação, antes de entrar no bar buscando refúgio. Pego meu copo na mesa e tomo um gole. O líquido queima, rasgando a garganta, mas não apaga o alerta vermelho que continua vibrando no meu sangue.

— Acho que já está na hora de ir embora. — Madeleine diz. A voz ainda é um sussurro tenso. Olha para a rua, para o céu, para qualquer lugar que não seja meu rosto. De repente, pragueja. — Merde! 

A voz sobe, carregada de indignação. Joga a cabeça para trás, frustrada. A luz desenha o perfil, expondo a garganta e a linha da mandíbula travada.

— Eles ainda devem estar na minha casa.

Mordo o lábio inferior, processando a informação. Caminho ao redor, avaliando as variáveis. A máscara de rainha do gelo caiu no chão e quebrou, o que restou é exaustão pura e medo. 

Madeleine não fugiu de mim. Se continua aqui, ao alcance da minha mão, é porque o medo da solidão é maior do que o medo do estranho que acabou de comprar uma briga por ela.

Sendo honesto, é a primeira noite de sábado em meses que não estou conversando com as paredes da minha mansão vazia. Eu não quero que isso acabe.

— Écoute-moi… — Peço a sua atenção, usando da língua dela para desarma-lá. Antes que suma, eu lanço a âncora. — Conheço um lugar. É tranquilo, longe de tudo.

Bennett me lança um olhar desconfiado, as sobrancelhas franzem, mas não diz nada. O seu silêncio é barulhento: ela não quer sentir, não quer sorrir para convidados indesejados em uma festa vazia. Madeleine quer escapar. E venho implorando a mesma coisa. Posso ser a sua rota de fuga. 

— É uma praia. Privada. Sem ninguém. Tenho alguns baseados se você gostar disso… — Me aproximo mais, invadindo a zona de segurança com cautela. Toco de leve o cotovelo dela. É um movimento arriscado, mas calculado. Quero que isso pareça leve, uma oferta, não uma pressão. — O que acha?

Madeleine hesita. Um vislumbre desolado passa nas íris, rápido como um flash. O peso da sua dor reverbera no meu estômago. Morde o lábio inferior, ponderando, a cabeça cai para o lado. Dessa vez, sustenta o olhar. O azul-glacial profundo das suas íris é escuridão.

— Se for… pelo baseado, é claro. — A resposta vem afiada, brincando com uma lucidez perigosa. — Você sabe que, se acontecer alguma coisa comigo, Magnus sabe com quem estive, né? 

O tom é sério e forte. Solto uma gargalhada de puro apreço. Bennett não é ingênua. A mandíbula quadrada relaxa por um segundo. Madeleine conhece Dylan de perto, e conheço Thomas Montenegro o suficiente para saber que ele moveria o inferno por ela.

— Ei! Pode acreditar, eu não quero a ira de Thomas sobre mim! — Levantando as mãos para o alto em rendição exagerada. — Ele é assustador quando quer.

É a vez dela rir, mas o riso morre rápido, substituído por uma decisão. Madeleine concorda.

— Okay. — O rosto brilha, com uma espécie de luxúria pela fuga. — Melhor do que ir àquela festa — murmura, inaudível.

A frase pesa mais do que um agradecimento. Por quê? Por salvá-la de si mesma? Por oferecer silêncio? Abro um sorriso discreto, contido.

— Vou fingir que não levo para o lado pessoal.

Apaga o cigarro com força no cinzeiro. Sem hesitar, Madeleine ajusta a alça da bolsa no ombro e agarra a garrafa de Calvados da mesa, reivindicando-a. Lança um último olhar para o bar antes de me acompanhar.

O caminho até o Mustang é curto. Dobramos a esquina para a penumbra, onde o metal escuro brilha sob os postes

Madeleine para. Desliza a mão livre sobre as linhas agressivas da lataria com pura admiração. Paro ao lado da máquina, apreciando sua reação, o modo como o cetim do vestido toca o metal.

— Um Ford Mustang Fastback, de sessenta e sete.

Surpreendo-me. Minha sobrancelha sobe. Ela conhece a máquina.

— Você está certa. 

Tento manter a voz neutra, mas falho em esconder a impressão. Bennett entende de clássicos, e entende de almas selvagens. Abro a porta pesada para ela. O cheiro de couro envelhecido e gasolina escapa. 

Entramos no Mustang. O som sólido batendo sela a fuga.

ADAM

Sábado, 9 de novembro de 2024, Los Angeles, CA.O motor V8 ronrona constante, um zumbido grave e visceral que vibra sob o assoalho, preenchendo o silêncio tenso entre nós. A garrafa  repousa no console central, vibrando leve com a potência do carro. Madeleine tem o braço para fora da janela, os dedos cortando o vento noturno como asas. Pat

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