Onde o Oceano Acaba

Onde o Oceano Acaba

O oceano acaba em dois corações feridos

by Tay Marais

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Adam Walker tem o mundo aos seus pés, um Oscar na estante e um vazio ensurdecedor no peito. Após um divórcio devastador que expôs sua vida pessoal na capa de todos os tabloides, a estrela de Hollywood foge para as sombras de Los Angeles em busca de anonimato. Ele queria desaparecer. Só não esperava encontrá-la. Ela é a 'L'Ange Blond' da França. Madeleine Bennett, uma herdeira prodígio que vive sob a vigilância constante e sufocante de um mundo que a idolatra, mas nunca a protegeu. Com um histórico de abusos e controle, Madeleine se esconde atrás de um escudo de sarcasmo ácido e de sua maconha. O que começa como uma atração física inegável na noite de seu aniversário se transforma em um acordo perigoso: uma fuga sem amanhãs. Mas, à medida que as luzes de Hollywood empalidecem diante da honestidade nua e crua de seu desejo, Adam e Madeleine percebem que não podem mais fingir. Quando o mundo exige que eles voltem para os holofotes, eles devem decidir se o amor é apenas um roteiro impossível... ou a única saída. Em Onde o Oceano Acaba, Tay Marais entrega um romance arrebatador e profundamente emocional sobre vulnerabilidade, os custos da fama e a coragem necessária para confiar novamente. O que esperar deste livro: ✦ Romance com Celebridades de Hollywood (Ator e Cantora) ✦ Slow Burn & Cura Emocional Profunda ✦ Duplo Ponto de Vista (Entre na mente de ambos os personagens) ✦ Dinâmica "He Falls First" (Ele se apaixona primeiro) ✦ Final Feliz por Enquanto (Happy For Now - HFN) / Início de Série Nota do Autor: Este é um romance contemporâneo adulto e intenso que contém cenas de intimidade detalhadas, linguagem explícita e temas como superação de traumas, abusos passados e uso de substâncias. Recomendado para leitores maduros.

  • Romance
  • Literary Fiction
  • Contemporary Romance
  • Celebrity Romance
  • Slow Burn Romance
  • Relationship Drama

ADAM

Sábado, 9 de novembro de 2024, Los Angeles, CA.

A porta de madeira pesada bate com força. Um rastro de luz corta a penumbra, abafando os acordes de Dreams do Fleetwood Mac. O som do trinco ecoa pelo bar vazio. 

Ela não entra, desfila. O estalo seco dos saltos agulha contra a madeira desgastada dita o ritmo do ambiente. Pernas nuas guiam o olhar até a barra do vestido de cetim preto, que adere às suas curvas frias como uma segunda pele.

A postura trava. Sem girar o pescoço, o banco range sob o peso e os ombros se ajustam. O espelho manchado atrás das garrafas exibe a cena. O boné desce um centímetro, o suficiente para obscurecer o azul-gelo das íris, mas não a visão. 

Cada movimento é coreografado. O cabelo champanhe cai em ondas pelos ombros, uma pintura renascentista na sujeira de Los Angeles. A confiança é uma armadura. Ignorando os poucos olhares no recinto não por soberba, é treinamento. Foco no objetivo.

Caminha até o bar e para a duas cadeiras de distância. A pressão atmosférica muda. O ar fica pesado, carregado com um perfume de baunilha que não pertence à madeira velha e cerveja choca. A aba do boné desce. Invisível. Permaneça invisível. 

Mas virando o rosto para a luz do balcão, a invisibilidade se torna irrelevante. O reconhecimento vem como um soco seco. 

Madeleine.  O fantasma das histórias de Dylan, a melhor amiga de Thomas.  “Mad” sempre achei um apelido idiota de tabloide, até vê-la pessoalmente. O que diabos está fazendo no meu refúgio? 

— Madi, o que está fazendo aqui? — A voz de Magnus quebra o silêncio dela.

Meu maxilar trava. Desvio o olhar para o copo, estudando o líquido âmbar. Sou um ator. Reconheço quando alguém está atuando. E está entregando a performance da sua vida.

O velho barman, cuja expressão padrão varia entre indiferença e hostilidade, abre um sorriso que nunca havia visto. 

Contornando o balcão limpa as mãos no avental. Os braços abertos, abraçando o cetim caro e a mulher intocável como se fosse seu próprio sangue.

— Magnus, quanto tempo… — A resposta dela vem arranhada contra o ombro dele. Uma falha na vocal que me faz inclinar de leve a cabeça. Interessante. 

Eu não deveria ouvir. Mas observar o comportamento humano é um vício pessoal, e agora, estou viciado na cena que se desenrola ao meu lado.

— Feliz aniversário! — Magnus diz, afastando-se para segurar as suas mãos com uma familiaridade que me deixa tenso. — E sinto muito, minha querida. Seu avô era alguém muito querido por mim.

O contraste é violento. Parabéns e pêsames na mesma respiração. Madeleine solta das mãos dele, para mexer no próprio dedo, o anel gira. Eu levo os meus à marca da aliança, que agora é apenas um ponto mais claro na minha pele.

Merci… — O tom caindo para o zero absoluto. Frio, mecânico. Uma defesa rápida para não desmoronar diante da menção a Henri Bennett. E funciona. 

— Você anda ocupada demais para passar por aqui, não é mesmo? — O tom brincalhão tenta suavizar o clima pesado. Ele consegue uma risada rápida dela. — O mesmo de sempre? 

Magnus já começa a caminhar de volta para trás do balcão, buscando o copo. 

— Sim, por favor. Com muito gelo. 

Ela desliza para a cadeira alta com uma postura  natural, mas esculpida. Coloca a bolsa de grife sobre o balcão sujo sem se importar. Perto o suficiente para ser notada, e longe para manter o controle. 

Cada movimento é coreografado: o nariz empinado, o desdém aristocrático, a elegância que grita para ninguém se aproximar. Mas está escondendo um tsunami na forma como morde o lábio inferior. Suprimindo uma verdade que poderia estilhaçar o espelho à nossa frente.

Madeleine. Bennett. 

A herdeira, a “L'Ange Blond”, o anjo loiro que Hollywood devorou e cuspiu. Ex-atriz mirim que cresceu rápido demais sob os holofotes e se transformou em uma cantora prodígio. Estamos ambos aqui, fingindo que não somos o que o mundo decidiu que somos. 

Forço meus olhos de volta para a televisão velha no canto, tentando recuperar o foco, mas minha visão periférica me trai. 

Magnus alcança a prateleira de cima. A garrafa inconfundível. Um sorriso involuntário,  imperceptível, repuxa o canto da minha boca. 

Calvados? Magnus me apresentou essa bebida há uma semana, e é dela? 

Não é apenas um conhaque qualquer, é bourbon de maçã, rústico, forte e, naquela safra específica que Magnus guarda como um tesouro? É obsceno de caro. 

Nunca encontrei ninguém em Los Angeles, muito menos alguém com essa aparência de porcelana, que tivesse esse gosto. O meu gosto. O legado da Normandia é dela. 

Disfarçado, volto a buscá-la pela segurança do reflexo. Que se torna minha ferramenta de espionagem. A luz amarelada e suja desenha o seu perfil, cortando a escuridão. Minha disciplina falha, minhas tentativas de ignorá-la são inúteis. Madeleine tem uma gravidade própria. 

Magnus entrega a bebida e deposita a garrafa de vidro ao lado do copo com um baque surdo. Ele pergunta: 

— E então, minha querida, precisa de mais alguma coisa? 

A voz dele me dá um choque térmico. O tom ríspido e direto que usa comigo há um ano é substituído por uma doçura paternal. Eu não o culpo, mas me desequilibro. 

Madeleine é uma alienígena neste cenário com esse figurino de grife, mas a familiaridade com o local é absoluta. 

Dou-me conta: eu não estou no meu esconderijo. Estou no território dela.

— Não precisa se preocupar comigo, Magnus. — O tom é educado, a dicção perfeita, mas firme. Uma barreira polida. — Vim para cá porque é o único lugar onde encontro paz nesta cidade. 

Ele ri e concorda com a cabeça antes de se afastar, deixando-a a sós com o Calvados. 

Paz? Em Los Angeles? Nem mesmo aqui consigo encontrar. No espelho, assisto ao ritual. 

— Santé, bon-papa — Ergue o copo em um brinde invisível. Madeleine vira-o. Um gole único. Sem careta. Sem hesitação. 

Bennett pega a garrafa pesada e se serve novamente. Movimentos econômicos. Então, ela quebra a quarta parede e olha ao redor. As adagas encontram meus olhos refletidos no espelho.  Merda.

O contato é elétrico. Desvio para a TV como um amador, o coração bate contra as costelas, um ritmo descompassado que odeio. 

Fui pego. A ironia do universo se manifesta com Someone New, de Hozier, arranhando nos alto-falantes. A sua atenção queima a lateral do meu rosto. A pressão atmosférica ao meu redor despenca. O perigo da baunilha fica mais intenso.

Clack.

O som seco do copo contra a madeira é um ultimato. O pescoço gira. Não há como fugir. Está preparada, o corpo virado no banco, me encarando. Quando nossos olhares se cruzam sem barreiras, meu maxilar se trava com força. O ar sai dos meus pulmões. Não é apenas beleza, é intensidade. 

Ela pisca. Uma fração de segundo em confusão, e a inspiração presa. A postura defensiva relaxa. Madeleine me reconhece. Solto o ar devagar pelo nariz. 

Controle, Adam. Desviando o olhar desconcertada. Volta a atenção para o Calvados. Mas o dano está feito. E a bebida não é distração suficiente. O dedo girando o anel com uma velocidade dolorosa. 

A tensão toma meu corpo. Meus dedos ainda ardem com a pressão da caneta no papel, o peso morto da assinatura que me selou como um homem divorciado há mais de vinte e quatro horas. 

Nossos rostos e vozes estão espalhados por todo lugar, com certeza viu o suficiente do meu. Idiota. O boné não esconde nada. Me amaldiçoo por encontrá-la justo hoje. 

Madeleine não me olha de novo. Há uma rigidez sutil na sua espinha. Ótimo, o desconforto é mútuo. 

Respiro fundo, e viro o resto do líquido na garganta. O ardor é bem-vindo. Faço um sinal para Magnus enquanto Bad Reputation grita em estática pura no fundo. 

O velho entende a deixa rápido demais. Ele pega a garrafa que estava com ela, enche meu copo até a borda, mas não a leva de volta. 

Ele pousa o Calvados exatamente no meio do espaço vazio entre nós dois. O vidro bate contra a madeira. Uma ponte. Ou uma armadilha. Que jogo você está jogando, Magnus? É um convite explícito. 

Uma descarga elétrica percorre a nuca, despertando nervos mortos desde bem antes do divórcio. Adrenalina. Se eu sair agora, mantenho a segurança, o anonimato e o vazio. Se eu ficar… Porra. 

A névoa cinza que cobre minha vida se dissipa sob o seu olhar. Estou vivo. É perigoso. É estúpido. E eu não vou recuar.

Inclino na sua direção, reduzindo a distância entre nossos bancos de couro. Invado o espaço pessoal com precisão e intenção. Meu calor irradia da pele. Um sorriso tranquilo curva meus lábios. Ensaiado para desarmar

— Você sabe escolher bem o seu veneno. 

A voz sai baixa, grave, modulada naquela frequência de intimidade compartilhada que costumo usar para seduzir a câmera. Madeleine ergue os olhos do copo, sorrindo de canto,  imperceptível. Inclina a cabeça, me analisando com frieza.

— É uma habilidade adquirida com o tempo — responde, o tom casual, mas carregado de um charme desconcertante. 

Ela bebe um gole, arqueando uma sobrancelha, e me desafia a continuar. 

— Nunca achei que fosse encontrar você, logo aqui… — tento sondar sem ser óbvio. 

Madeleine solta uma risada curta. Ácida. Sarcasmo puro. Com o barulho da porta fechando, quebra o contato, verificando o ambiente. Paranoia? Fuga? Volta para mim.

— Você me encontrou? — pergunta, se divertindo com a inversão. — Não sabia que estava perdida. 

Touché, Bennett. O sangue esquenta. Ela não late, ela morde. Em reconhecimento um sorriso malvado se abre no meu rosto, eu gosto disso. Gosto demais. Meu cérebro acelera, buscando a próxima linha, recorrendo aos anos de improvisação.

— É curioso você estar aqui nesse fim de mundo… quando poderia estar em outro lugar sendo o centro das atenções — provoco, meu tom leve, mas intencional. 

O efeito é instantâneo. Madeleine congela. A taça de Calvados para no meio do caminho, a milímetros de seus lábios. Tenho a sua atenção total agora. Instigante. Ela ri seca, me jogando um olhar de canto de olho.

— Em outro lugar? Como você poderia saber? — rebate rápida. 

Tenta cobrir com indiferença, olhando ao redor como se não importasse, mas a rigidez volta a dominar os ombros esguios. Deixo o sorriso se abrir mais, o brilho de quem possui a informação privilegiada. Aumento a aposta.

— Thomas me convidou para uma festa esta noite. Ouvi dizer que é para uma aniversariante especial… — Faço uma pausa estratégica, a micro-expressão de culpa cruza o rosto dela. — Mas acho que ela fugiu. 

Mantenho meu tom leve e cheio de intenção. Com Colors do Black Pumas tocando ao fundo, Madeleine inclina a cabeça, e um sorriso cínico e lento se forma em seus lábios.  

— Bem, que sorte a sua encontrar a aniversariante em fuga. 

O tom é veludo puro, grave e arrastado. Uma entrega impecável, para provocar.

— Uma grande sorte… — Devolvo rápido, o ritmo do meu coração acelerando. 

Os dedos apertam o copo. O gelo queimando a palma da minha mão contra o ar quente do bar. Busco o peso da aliança no meu dedo anelar, encontrando apenas o vazio.

Henri Bennett. O magnata. O funeral foi há o quê? Três dias? E Madeleine está aqui, em um bar sujo, bebendo destilado. 

Engulo em seco. A vontade de tocar na ferida briga com o bom senso. 

‘Fale sobre o avô. Cale a boca, Adam’.

— Thomas é demais para lidar. Dessa vez não estou a fim de festa. — Ela solta uma risada suave, mas há sombra demais no olhar. Pesar genuíno.

As mãos não aquietam sobre o balcão. Os dedos longos atacam o ouro branco que usa, girando-o de maneira obsessiva. Que bate contra o vidro. Gira. Click. Gira. Ali está. A rachadura na postura impecável. O tique nervoso que  não conseguiu editar.

— Então você escolheu este lugar… — Indico as banquetas rasgadas, a madeira velha.

— Tranquilo, escuro, ninguém desejando parabéns, a não ser o Magnus. — Ela faz uma pausa, levanta o queixo, me lançando um olhar que é um desafio direto. — Perfeito, não acha? 

— Perfeito — O sorriso surge fácil. Estamos compartilhando o desprezo pelas nossas prisões bem mantidas. — Embora, tenho que admitir, Thomas parecia bem animado com a ideia de me apresentar à estrela da noite. 

— Thomas não entende que algumas noites são melhores quando não se é o centro das atenções. 

Devolve em um golpe, mas não há raiva, apenas uma exaustão óssea que espelhada meus próprios nervos. 

— Concordo, — digo, e é a verdade. Eu vivo fugindo. — Mas hoje deveria ser uma exceção, não acha? 

Minha voz cai meio-tom. Mais perto. Desviando o olhar, os dedos avaliam a borda do copo e a minha intrusão.

— Talvez — ela diz. Uma frequência baixa que faz meu corpo estremecer em resposta. — Mas precisava de um dia sem que alguém estivesse me vigiando. 

Balanço a cabeça, incapaz de conter a ironia. 

— Acho que essa parte do seu plano falhou. 

Madeleine esboça um pequeno sorriso. Mas não me manda embora. Ao contrário, a tensão drena dos seus ombros. Desafiando a gravidade e o bom senso, pende na minha direção.

— Já que não houve o protocolo, Adam Walker — digo, forçando um sorriso astuto enquanto estendo a mão sobre a madeira riscada do balcão. 

— Madeleine Bennett… — Ela responde, a voz calma, mantendo a cadência, ignora minha mão estendida. E não perde tempo. — Monsieur Walker, do que está fugindo? 

A pergunta sai afiada, cortando o ar carregado de álcool. E para garantir que o golpe acerte, se move. Desliza da sua cadeira para a banqueta vazia colada ao meu lado, arrastando seu copo junto. Aniquila o espaço seguro entre nós. Deliberada. Invasiva. 

Bennett toma um gole da bebida, fixa nos meus, esperando a resposta que já leu na minha postura.

Limpo a garganta, ganhando segundos preciosos. A pressão atmosférica despenca. Suspiro, a verdade queima a ponta da língua. É mais do que sinceridade, é um teste. 

Quero ver como Bennett reage à minha sujeira. Se vai me dar o olhar de pena que todos me deram. Um pedaço da humilhação que definiu meu último casamento.

— Há um ano, minha… ex… — A palavra tem gosto de bile fazendo meu maxilar travar. Um espasmo de bruxismo. Levanto e eu travo no azul-glacial. — Me deixou por um bilhete. E ontem… ontem nós assinamos os papéis do divórcio. 

Levanto o copo, um brinde sarcástico à minha catástrofe pessoal. Solto uma risada seca e bebo. Madeleine não recua. Inclina o queixo, os topázios brilham sob a luz amarela, e bebe junto. Cúmplice no caos.

— Você deve estar devastado… — A voz vem carregada de um sarcasmo brincalhão, cruel de tão honesto.

Bennett toca de leve no meu ombro, o calor dos dedos atravessa o tecido do meu terno, e solta uma risada curta. 

Eu travo por um segundo. Esperei o recuo, o desconforto social, mas faz graça. Madeleine valida o absurdo da situação. O peso da responsabilidade saindo das costas. 

— Ela pelo menos falou algo poético no bilhete? 

O gosto ruim inunda minha boca. O ar fica rarefeito. O bilhete. A confissão da traição. 

— Ha! — Rio, sem graça nenhuma. — Com certeza não, ela falou demais… 

As palavras saem estranguladas. A sensação de ser descartável faz meus pulmões arderem. Eu não consigo respirar dentro desse assunto. Minha mão agarra a garrafa de vidro de Calvados como se fosse meu único aliado. 

Madeleine nota a mudança na minha frequência cardíaca. E se afasta, girando o corpo para frente, as unhas compridas batendo um ritmo impaciente contra a madeira do bar. Bennett viu o limite e recuou. Inteligente. 

— E você acha mesmo que com um simples boné dos Yankees, vai conseguir se esconder? O Prada, entrega tudo — O tom é provocador. 

Gira o copo, percorrendo a lapela impecável da minha roupa.

— Uma pergunta decente?  — Provoco, rindo suave. 

Revira os olhos, contendo o riso. O comentário não é sobre moda, é um bisturi me cortando aberto. Ajusto a aba do boné. Escuto a estática de Wicked Games furar nossa bolha. De volta ao jogo.

— Está tentando dizer que não me misturo bem por aqui? 

— Não exatamente. — Vira a cabeça, me escaneando além do corte do tecido. — Não com esse terno, feito sob medida para você. 

Inicia um movimento, invadindo meu espaço, mas para na metade do caminho. Recua, testando minha reação. Lambo os lábios, a boca seca. O vácuo que deixa exerce uma pressão negativa, me puxando para frente. Preencho o espaço.

— Isso é um elogio? 

— Nem de longe. — O sorriso é travesso. — Esse boné dos Yankees é um ultraje com esse terno Prada. 

Tiro o boné, rindo, e o jogo sobre a madeira riscada do balcão. A armadura cai. 

— Melhor agora? 

Madeleine se inclina. A mão estica, violando a fronteira final. Os dedos tocam a ponta do meu cabelo, bagunçando os fios com a intenção de arrumar. O toque é elétrico, um choque térmico contra tudo que vivi no último ano.

— Bem melhor. 

Ela tenta ser despreocupada, mas há algo denso na íris. Meu reflexo é capturar. Minha mão fecha em torno do seu pulso controlado, firme, mas sem força excessiva. 

O que Bennett está fazendo é riscar um fósforo perto de um barril de pólvora. Eu a seguro ali, suspensa no tempo,  a pulsação sob meus dedos. Lanço o meu melhor sorriso de galã de comédia romântica e solto o seu pulso.

Você me vê. Eu também te vejo. Mas mesmo naquele segundo, estou sob o controle dela. Coloco meu escudo de volta na cabeça.

— Obrigado, mas alguém vai me reconhecer. O boné, pelo menos, me distrai dessa possibilidade. 

— Adam, você tem uma estatueta dourada na estante e o rosto em todo lugar de Los Angeles. O boné não faz milagre. — Madeleine balança a cabeça, mas o sorriso vacila, olhando ao redor.

A menção à coisa dourada faz meu estômago contrair. O Oscar por The Quiet Man. O troféu que ergui sorrindo para as lentes enquanto minha esposa levava meus discos e minha dignidade. Uma parede de vidro sobe entre nós, fria. Ela entende o peso, meu pensamento voa para o Prêmio César, a revelação mais jovem da história. 

Balanço a cabeça. Abro um leve sorriso, sem mostrar os dentes.

— É por isso mesmo… 

A desconfiança transborda no meu rosto. Madeleine faz uma careta, percebendo que tocou na ferida. A fama entrou na conversa, arrastando a realidade para dentro do nosso refúgio. 

Meu olhar varre o bar, um instinto antigo de sobrevivência me fazendo procurar por câmeras ou olhares curiosos. 

Eu não estou mais apenas bebendo com uma mulher interessante. Estou exposto. Sou um alvo, e a conexão que temos, elétrica e rara, já está em ameaça. 

O silêncio desce sobre nós como uma neblina densa, pesada, preenchida pela guitarra distorcida do Nirvana. Heart-Shaped Box.

O zumbido violento do celular vibrando contra a madeira do balcão, quebra o transe. Uma broca nos meus nervos. Acende, iluminando a penumbra com a mensagem que deveria significar liberdade.

[J.P. MORGAN PRIVATE BANK] Alerta de Transação: Transferência eletrônica de saída finalizada. Beneficiário: R.S. – Escrow Account / Legal Reps. Status: Liquidação Concluída.

É um balde de água gelada na espinha. O maxilar ameaça ceder, os dentes rangendo. Sem hesitação, o polegar pressiona o botão lateral, apagando a tela. Mas o timing de Riley é sempre impecável para a destruição. 

Acendendo novamente. Madeleine toma um gole do seu copo enquanto meus olhos varrem o texto rápido demais para impedir a leitura compartilhada:

Transferência confirmada. Meu advogado disse que o acordo de partilha foi selado. Enfim livres. É o melhor para nós dois, Adam. Meus carregadores….”. 

A audácia me faz apertar o copo com uma pressão letal, os nós dos meus dedos brancos. O impulso de estilhaçar o celular contra a parede é um espasmo que contenho. Ethan era como um irmão, e vocês transformaram meu casamento em uma farsa. A estrutura do copo protesta, mais um milímetro de força e estaria tirando cacos da minha palma. 

Controle, Adam. 

Respiro fundo, forçando o ar para conter a raiva que ferve sob a minha pele. Viro o celular para baixo, deixando-a no escuro. Ela não merece minha resposta. E não merece que interrompa esta noite por causa das mentiras que agora chama de ‘Enfim livres’. 

— Que tal me contar o que tinha naquele misterioso bilhete? — Madeleine pergunta, arqueando uma sobrancelha. Leu a minha raiva e, em vez de recuar, avança.

Solto uma risada desconfortável, passando a mão no rosto. Bebo um longo gole, tentando lavar o gosto ácido daquela mensagem.

— Achei que você já tivesse lido em algum site de fofoca. A versão do TMZ costuma ser mais criativa. — Faz uma careta de repulsa. Eu tento outra saída. — Meu irmão e Thomas já não fofocaram sobre isso?

— Prefiro quando a informação vem direto da fonte. — Ela solta, gesticulando com a mão, movendo-se na cadeira para me encarar. — E mesmo assim… Nunca sabemos se alguém está mentindo. 

O tom é astuto. Madeleine é esperta. Rápida. Rio, incrédulo com a audácia. 

— Ninguém me contou nada! — Insiste, um brilho de caçadora nos olhos. — E você não vai escapar tão fácil, Walker. Começou a história, agora vai ter que terminar…

O olhar gelo pesa nos topázios, calculando o risco. O brilho pega fogo e me diz que não quer a versão polida e segura. Quer a sujeira. Decido dar uma parte. Uma isca. Baixo a aba do boné, escondendo os cinzas por um segundo, antes de soltar o ar.

— Só um bilhete. Foi tudo o que ela deixou na bancada da cozinha. — As palavras saem simples. Madeleine fica em silêncio, esperando, o anel girando em seu dedo. — Admitindo que me traía…

Mas o veneno real, o nome dele, o meu melhor amigo, o padrinho do casamento? Fica preso na minha garganta como um anzol. 

— É complicado…

A vergonha de ter sido substituído é grande demais para compartilhar agora. Limpo a garganta, esfregando a barba.

— Quando não é? — Madeleine responde. O sorriso desaparece. A expressão é fria, mas sem julgamento. — São cicatrizes que carregamos. E levam tempo para pararem de doer… o tempo não cura, mas tudo no fim passa.

Sorrio, pendendo involuntário na sua direção. O que é esta noite? Meu eixo quebrou de vez.

— Você consegue ler meus pensamentos, Bennett? 

— Sei o suficiente sobre o preço de confiar em alguém… — Ela se inclina na minha direção, a postura de intocável retornando, mas agora com um rastro trágico. — É por isso que não me envolvo. La destruction mutuelle est la seule certitude d'une relation. A destruição mútua é a única certeza de um relacionamento

Traduz a frase para garantir que eu entendo. O fascínio trava meus músculos. Destruição mútua. Não é o que uma mulher de vinte e dois anos costuma acreditar. A experiência vibra em cada sílaba. Madeleine deixou a máscara cair, e não é uma garota. Poderia ter a minha idade, ou talvez cem anos a mais em danos.

— Infelizmente, não posso discordar disso. — respondo, minha voz descendo para o registro mais grave, arranhada pelo Calvados e a verdade nua.

Ficamos assim por alguns segundos. O silêncio não é vazio, é elétrico. Nossa presença troca faíscas de uma conversa não dita. O vibrar do celular sobre o balcão, cortando o momento. Uma nova notificação. 

Dylan. Alguém viu a Madeleine? O Thomas está surtando.

A ironia é tão perfeita que uma risada seca escapa da minha garganta. Meu irmão mais novo, o namorado devoto do Thomas, está caçando a fugitiva que está a trinta centímetros do meu cotovelo. Madeleine, encara o movimento circular do líquido no copo. Viro a tela.

— Acho que estão à sua procura, Bennett.

Ela lê a mensagem. A reação é imediata: um balançar de cabeça exausto. Termina a bebida com um suspiro dramático, serve uma dose generosa para si e, sem pedir permissão, completa o meu. Cúmplice.

— Ele tem o meu Buscar iPhone. Desliguei meu celular esta noite por causa disso. — Há afeto na voz, mas também a exaustão de quem é vigiada. Aperta as pálpebras, obsessiva, gira o anel em seu dedo mínimo. — Me surpreendo que Thomas ainda  não colocou um rastreador em mim. Ele nunca sabe quando parar.

Os topázios sobem, me estudando, calculando minha lealdade. Arqueio a cabeça, curioso. 

— E o que você vai fazer? — questiona, acenando em direção ao celular onde a mensagem de Dylan ainda brilha.

Tenho uma escolha: ser o informante, ou ser o conspirador. Pagan Baby do Creedence carrega meu sorriso astuto curvando meus lábios. Aquela expressão me custa menos do que qualquer atuação dos últimos meses.

— Nada! — Afasto o aparelho para a borda da madeira, resíduo de uma vida que não me pertence. — Sou sortudo, lembra? — Encaro-a, deixando a intenção queimar no ar entre nós. — Tenho a atenção da aniversariante toda para mim.

Madeleine ri. É um som alto, cristalino. Genuína.

Um choque de eletricidade percorre minha espinha, despertando os nervos que acreditei estarem mortos. O som é mais real do que qualquer segundo que vivi nos últimos três anos.

As pálpebras tremem. A intensidade é algo para o qual não estava preparado. Perigo. A mandíbula trava em um espasmo de bruxismo. Me afasto, quebrando o feitiço que está lançando sobre mim. Preciso queimar essa sensação antes que cometa uma estupidez.

— Eles que se virem! — Eu continuo, forçando um sorriso irônico para mascarar o abalo sísmico interno. Tateio o bolso do terno Prada. Pego o maço de cigarros. — Você fuma? 

— Às vezes — ela responde. O tom é carregado, habitando o território dos segredos.

— Então vem. Preciso de ar. 

Eu testo o limite. Para minha surpresa, e deleite, não recusa. 

Madeleine se levanta com uma fluidez felina e, num movimento que me faz rir por dentro, agarra a bolsa pequena e a garrafa de Calvados, pelo bico. Uma herdeira fugindo com a bebida. Magnífico.

Jogo um valor generoso de notas no balcão, pagando o destilado e o silêncio de Magnus. Com o copo na mão, atravesso a porta do bar, segurando-a. Madeleine passa por mim, o doce perfume de fumaça com baunilha invade meu espaço. Pressionando a garrafa fria contra o peito e vai direto para uma mesa de vidro vazia na calçada.

Coloco o copo e o maço sobre o tampo. Bennett deposita a garrafa ao lado com um baque. A rua está deserta. 

Sem dizer nada, ofereço um cigarro. Ela aceita. Com o isqueiro Zippo, protejo a chama do vento e acendo o dela. A luz laranja ilumina os seus cílios, as maçãs do rosto. Depois, acendo o meu.

A primeira tragada é o alívio. A fumaça sobe, misturando-se à noite de Los Angeles.

O rosto de Madeleine, desenhado pelas luzes tênues da rua e a brasa do cigarro, é hipnotizante. O silêncio que se segue é confortável. Fácil demais. É isso que torna tudo assustador. Estar ao seu lado, com todo o caos que carrega, é para ser uma guerra constante. Mas, é a primeira vez desde o divórcio, que algo que se assemelha à paz. 

Inspiro fundo, tragando a fumaça e a coragem necessária para quebrar a barreira. Decido dizer o que está guardado, não como uma esperança, mas como um fato.

— Sei que você não quer falar sobre isso, mas… — começo, hesitando. Limpo a garganta, ajustando o tom. — Perdi meu avô aos vinte e um anos. E, olha, não é como todo mundo diz. Você não “segue em frente”. Você aprende a viver com o peso, porque a alternativa é não viver. — Rio, irônico tentando aliviar o peso da frase. — A saudade fica. Só… lembre-se de que ele amava você. E continua em você. 

Madeleine fica em silêncio. O olhar dela pesa sobre mim, avaliando a minha sinceridade, antes de desviar para a rua deserta. Foi um tiro no escuro. Se perde na memória de Henri Bennett, mas eu sustento o espaço. 

Seus dedos buscam o anel de sinete no dedo mínimo. Gira. O único ponto de foco.

— Bon-papa me criou como se fosse minha segunda chance na vida — ela diz. A voz sai baixa, rouca. 

Segunda chance. A escolha de palavras ativa meu radar, mas mantenho o silêncio.

— Pode ser que ele esteja comigo. Mas… — A voz falha. Bufa, frustrada com a própria fragilidade. — Nada importa. Tudo o que quero é vê-lo mais uma vez… e nada pode fazer isso acontecer.

Concordo silencioso. A profundidade da dor dela me leva ao meu próprio passado, à perda da minha mãe, ao vazio que nada preenche. 

— Tudo o que ele amou continua aqui, em você. — No horizonte, onde as luzes da cidade apagam as estrelas. Decido oferecer o meu santuário. — Meu avô costumava me levar para caminhar na praia. Sempre que fico com saudades dele, vou para lá… É onde sou livre.

Ela se aproxima, pensativa. Apaga o cigarro no cinzeiro e, sem cerimônia, pega outro da minha carteira. Acendendo com o zippo que tira da bolsa.

— Você não está errado sobre isso… — murmura.

Madeleine para, focando em um ponto cego na escuridão. Antes que eu possa responder, a atmosfera muda. Passos apressados, pesados, sobem a calçada deserta, invadindo nossa bolha.

Um casal passa por nós. A linguagem corporal é um desastre. O homem puxa a mulher pelo braço com uma força desnecessária. Ele murmura algo entre dentes, baixo, mas a frequência é inconfundível. Ameaça.

Madeleine congela. Por completo. Não é um susto, é um desligamento do sistema. Acompanha a cena com uma expressão de aço, algo que ainda não havia visto. O terror está lá, mas está enterrado sob camadas de defesa. Conhece essa violência de perto.

O instinto vibra, eletricidade percorrendo cada músculo. Dou dois passos largos para a borda da calçada, me colocando entre ela e a rua. Não corro. Caminho. Sou discreto, mas ocupo o espaço com a autoridade de quem sabe como projetar ameaça. Ajusto a postura, tornando o corte do meu terno uma barreira física.

O homem levanta os olhos. Se me reconheceu ou tem medo de um estranho com o dobro do seu tamanho? Pouco importa. A covardia substitui a agressão no mesmo segundo. Ele solta o braço da mulher, recuando. Resmungando algo ininteligível se apressa para o outro lado da rua, fugindo do confronto.

Volto-me para onde estava, escaneando o perímetro. O aperto na minha mandíbula é tão forte que a raiz dos dentes protesta.

Madeleine, se afasta. Recuando contra a parede do bar. Fugindo da situação? Ou de mim? Os olhos continuam vidrados, presos em um trauma que eu não posso ver, mas resoa. O que está acontecendo dentro da sua cabeça, Madeleine?

Dou um passo à frente, seguindo a direção dela por instinto. Preciso trazê-la de volta. 

— Ei… Já passou. 

Minha voz sai suave, um contraste total com a postura de ataque de segundos atrás. As mãos continuam fechadas em punhos ao lado do corpo. Consigo atrair sua atenção, mas não sustenta o contato visual. 

A mulher desconhecida se afasta, ajeitando o vestido com movimentos trêmulos. Ela lança um olhar rápido na nossa direção com um lampejo de alívio e humilhação, antes de entrar no bar buscando refúgio. Pego meu copo na mesa e tomo um gole. O líquido queima, rasgando a garganta, mas não apaga o alerta vermelho que continua vibrando no meu sangue.

— Acho que já está na hora de ir embora. — Madeleine diz. A voz ainda é um sussurro tenso. Olha para a rua, para o céu, para qualquer lugar que não seja meu rosto. De repente, pragueja. — Merde! 

A voz sobe, carregada de indignação. Joga a cabeça para trás, frustrada. A luz desenha o perfil, expondo a garganta e a linha da mandíbula travada.

— Eles ainda devem estar na minha casa.

Mordo o lábio inferior, processando a informação. Caminho ao redor, avaliando as variáveis. A máscara de rainha do gelo caiu no chão e quebrou, o que restou é exaustão pura e medo. 

Madeleine não fugiu de mim. Se continua aqui, ao alcance da minha mão, é porque o medo da solidão é maior do que o medo do estranho que acabou de comprar uma briga por ela.

Sendo honesto, é a primeira noite de sábado em meses que não estou conversando com as paredes da minha mansão vazia. Eu não quero que isso acabe.

— Écoute-moi… — Peço a sua atenção, usando da língua dela para desarma-lá. Antes que suma, eu lanço a âncora. — Conheço um lugar. É tranquilo, longe de tudo.

Bennett me lança um olhar desconfiado, as sobrancelhas franzem, mas não diz nada. O seu silêncio é barulhento: ela não quer sentir, não quer sorrir para convidados indesejados em uma festa vazia. Madeleine quer escapar. E venho implorando a mesma coisa. Posso ser a sua rota de fuga. 

— É uma praia. Privada. Sem ninguém. Tenho alguns baseados se você gostar disso… — Me aproximo mais, invadindo a zona de segurança com cautela. Toco de leve o cotovelo dela. É um movimento arriscado, mas calculado. Quero que isso pareça leve, uma oferta, não uma pressão. — O que acha?

Madeleine hesita. Um vislumbre desolado passa nas íris, rápido como um flash. O peso da sua dor reverbera no meu estômago. Morde o lábio inferior, ponderando, a cabeça cai para o lado. Dessa vez, sustenta o olhar. O azul-glacial profundo das suas íris é escuridão.

— Se for… pelo baseado, é claro. — A resposta vem afiada, brincando com uma lucidez perigosa. — Você sabe que, se acontecer alguma coisa comigo, Magnus sabe com quem estive, né? 

O tom é sério e forte. Solto uma gargalhada de puro apreço. Bennett não é ingênua. A mandíbula quadrada relaxa por um segundo. Madeleine conhece Dylan de perto, e conheço Thomas Montenegro o suficiente para saber que ele moveria o inferno por ela.

— Ei! Pode acreditar, eu não quero a ira de Thomas sobre mim! — Levantando as mãos para o alto em rendição exagerada. — Ele é assustador quando quer.

É a vez dela rir, mas o riso morre rápido, substituído por uma decisão. Madeleine concorda.

— Okay. — O rosto brilha, com uma espécie de luxúria pela fuga. — Melhor do que ir àquela festa — murmura, inaudível.

A frase pesa mais do que um agradecimento. Por quê? Por salvá-la de si mesma? Por oferecer silêncio? Abro um sorriso discreto, contido.

— Vou fingir que não levo para o lado pessoal.

Apaga o cigarro com força no cinzeiro. Sem hesitar, Madeleine ajusta a alça da bolsa no ombro e agarra a garrafa de Calvados da mesa, reivindicando-a. Lança um último olhar para o bar antes de me acompanhar.

O caminho até o Mustang é curto. Dobramos a esquina para a penumbra, onde o metal escuro brilha sob os postes

Madeleine para. Desliza a mão livre sobre as linhas agressivas da lataria com pura admiração. Paro ao lado da máquina, apreciando sua reação, o modo como o cetim do vestido toca o metal.

— Um Ford Mustang Fastback, de sessenta e sete.

Surpreendo-me. Minha sobrancelha sobe. Ela conhece a máquina.

— Você está certa. 

Tento manter a voz neutra, mas falho em esconder a impressão. Bennett entende de clássicos, e entende de almas selvagens. Abro a porta pesada para ela. O cheiro de couro envelhecido e gasolina escapa. 

Entramos no Mustang. O som sólido batendo sela a fuga.


ADAM

ADAMSábado, 9 de novembro de 2024, Los Angeles, CA.O motor V8 ronrona constante, um zumbido grave e visceral que vibra sob o assoalho, preenchendo o silêncio tenso entre nós. A garrafa  repousa no console central, vibrando leve com a potência do carro. Madeleine tem o braço para fora da janela, os dedos cortando o vento noturno como asas.

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